A Anatomia da dívida: conheça o verdadeiro motivo que o impede de economizar dinheiro.

Tempo de leitura: 16 minutos

Que o juros do cartão de crédito e do cheque especial são os maiores juros do MUNDO você já sabe, mas o que talvez você não saiba são os efeitos químicos que esses sujeitos tem em seu cérebro e que, possivelmente, seja esse o motivo principal de a maioria das pessoas terem dificuldades em saber como economizar dinheiro.

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Pra começarmos esse artigo tenho uma pergunta que, além de pertinente, será reveladora ao final da leitura do artigo:

Você é capaz de afirmar, de imediato, e sem ficar olhando seus registros, o montante exato de dinheiro que deve neste instante?

Para reforçar essa pergunta, quando digo montante exato estou falando da soma de absolutamente tudo que você deve, desde a fatura do cartão de crédito que está em dia (ou não) até a soma de todas as parcelas do seu veiculo ou casa.

Independente de qual tenha sido sua resposta continue lendo esse artigo para descobrir:

  • Como economizar dinheiro;
  • Porque tendemos a subestimar o valor de nossas dívidas;
  • Quais as razões emocionais para justificarmos o orçamento apertado;
  • Porque é tão prazeroso usar o crédito;
  • Porque simplesmente dizer “gaste menos do que ganha” não funciona para a maioria das pessoas.
  • O que um copo de cerveja “a mais” pode lhe ensinar sobre sua realidade financeira.

mais uma dose

Se todas as pessoas do mundo querem uma vida saudável por que algumas pessoas fumam?

A resposta para essa pergunta está diretamente ligada a resposta para a pergunta: Se todas as pessoas do mundo querem uma vida financeira próspera por que algumas pessoas usam o crédito para “realizar seus sonhos”?

Em Abril de 2014 recebi via whatsapp um áudio de uma conhecida que se tornaria cliente nos próximos dias a aquele contato que dizia mais ou menos assim:

“Olá meu nome é Nilda (troquei o nome) e gostaria de saber se você faz consultoria para minha empresa. Tenho uma loja e percebo que o faturamento de minha loja não vem aumentando na mesma proporção que eu gostaria e quero saber se você pode me ajudar a melhorar os meus resultados”

Lembro que ouvi esse mensagem em um sábado chuvoso e, que eu, assim como outras pessoas que estavam na rua, me escondia da chuva em frente as lojas da avenida Paulista.

Naquele momento pensei; “o que será que REALMENTE há por trás dessa demanda?”

Continue lendo esse artigo para descobrir o que há em comum com a vida da Nilda e de todas as pessoas que possuem dificuldades em economizar dinheiro.

economizar dinheiro
Economizar dinheiro

Como não sou nenhum especialista no ramo de atuação daquela loja não podia meter o meu bedelho para tentar ajudá-la, mas tentei descobrir o que estava por trás dessa demanda, acreditando ter 2 hipóteses:

  1. A performance da loja estava realmente baixa e ela precisava vender mais, ou;
  2. O que ela me relatou na mensagem seria somente a ponta do iceberg e que havia muito mais coisas a se acertarem em sua vida.

Como era de se esperar o que a Nilda me contou foi somente a ponta do iceberg e havia tantas outros problemas secundários por conta desse problema, mas infelizmente ela não enxergara até que lhe abrissem os olhos.

Depois de algumas conversas via aplicativo de celular resolvemos marcar a primeira conversa via skype, para alinharmos o que seriam “as questões por trás de sua demanda”.

Depois de entender que suas finanças pessoais demandava precisão cirúrgica para resolver, percebi também que a Nilda pode representar a vida de muitas pessoas que acham que o seu problema financeiro resume-se a uma “pequena dívida” e que “um dia vai resolver” então resolvi compartilhar o que foi o nosso encontro naquele dia.

Além disso percebi o quanto o dinheiro influenciava a vida dela (e de todos nós) em outras áreas prejudicando seu casamento, a relação com os filhos e sua saúde física.

Na sexta feira seguinte ás 19h00 começamos uma conversa que tinha como programação durar 45 minutos. Comecei a ficar muito atento ao estado emocional dela a cada nova descoberta e não percebi a hora passar, de modo que 21h15 estávamos nos despedindo com uma lista de tarefas que a Nilda tinha de executar até nosso próximo encontro.

Continue lendo para descobrir o que aconteceu com a Nilda e o que a vida dela tem haver com a sua prosperidade.

Diagnóstico – Sorrateiro porém não silencioso, os problemas de ordem financeira não aparecem do dia para a noite, eles dão os primeiros sinais de vida quando usamos o nosso primeiro cartão de crédito ainda na idade jovial da adolescência. A sensação de consumir agora para pagar depois é MA-RA-VI-LHO-SA, não somente por anteciparmos uma compra, mas também por provocar uma sensação químico-cerebral comparada a poucos prazeres que a vida oferece.

Foi então que naquela conversa introduzi uma breve explicação sobre tais efeitos dizendo a Nilda que isso acontecia com ela e com outros 7 bilhões de pessoas no mundo.

“O nosso sistema nervoso tem 2 substâncias que são fundamentais nas decisões financeiras.

A Dopamina e a Serotonina.

A primeira é conhecida também por neurocientistas como hormônio do prazer por produzir um estado de excitação natural em nosso cérebro em resposta a recompensas. Em outras palavras, quando estamos em estado de êxtase ou demasiadamente feliz nosso cérebro está inundado com essa substância.

Já o segundo hormônio, a serotonina, é responsável por nosso humor ao longo do tempo e ajuda a manter um senso de segurança e proteção.

Um estudo realizado pelo neurofisiologista Wolgran Schultz, demonstrou que a busca por prazer, ou seja, a busca pela produção de dopamina nos motiva a assumir riscos. A simples sensação de ganhar algo, ou ter retorno vantajosos já estimula a produção de dopamina, mesmo que essa sensação não venha a se concretizar. Isso explica porque as filas da lotéricas estão sempre cheias quando os prêmios lotéricos oferecem valores elevados.

Para complicar ainda mais as coisas, quanto menos previsível for uma recompensa, maior é prazer produzido pela dopamina, ou seja, quanto mais eu antecipar as recompensas, que pode ser traduzida por compras, maior será o meu estado de prazer.

Imagine um rato de laboratório que recebe regularmente recompensas previsíveis sempre que empurra uma determinada alavanca. Empurrou, ganhou um pedaço de queijo saboroso. Agora, imagine que o fornecimento de alimento à esse rato seja irregular e imprevisível, esse pobre ratinho ficará empurrando a alavanca quase que como uma constante em sua vida.

O Autor David Krueger em seu livro “A linguagem oculta do dinheiro” compara o rato com a alavanca de prêmios imprevisíveis aos caça niqueis de Las Vegas, onde homens e mulheres estão puxando as alavancas quase que constantemente em busca de uma prêmio imprevisível.

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O que eu quero dizer com isso? as pessoas facilmente se deixam seduzir pela busca do prazer mesmo quando isso representa uma óbvia desvantagem lógica.

A razão para isso acontecer é muito simples:

O cérebro não exige realmente uma recompensa tangível para produzir dopamina. A mera antecipação de uma recompensa produz o mesmo efeito.

Como se isso não bastasse temos o fato de que a antecipação da recompensa pode causar ainda mais satisfação do que o fato de realmente recebê-la, isso porque quando atingimos nosso objetivo fechamos o dispositivo químico que gera o prazer pela antecipação, em outras palavras, com o objetivo atingido paramos de produzir dopamina.

Resumindo: buscar a recompensa é muito mais emocionante do que realmente obtê-la.

Isso explica porque os shoppings estão cheios de cartazes com palavras que tanto chamam a atenção dos consumidores “Liquidação”. É por essa razão que a Nilda tinha em seu guarda roupas uma série, quase que incontável, de sapatos e toda vez que comprava mais um ao chegar em casa o prazer pela compra era substituído pela culpa por ter gastado mais dinheiro quando claramente seu orçamento sinalizava que era preciso rever esse hábito.

anatomia da dívida

A essa altura Nilda já tinha entendido que o fato de ganhar, ou ao menos, a busca por recompensas estava ligado a dopamina ela me perguntou:

“E aquele outro hormônio que você me falou, a serotonina, o que te haver com isso tudo?”

Foi ai que comecei a discorrer que a experiência da perda causa uma queda significativa nos níveis de serotonina. Para se ter uma ideia disso níveis reduzido desse hormônio são encontrados em pessoas cronicamente depressivas.

Sendo assim tendemos a evitar uma perda para que não soframos com a baixa desse hormônio e evitar uma perda é o mesmo que evitar perder uma promoção, ou perder uma oportunidade incrível.

Entendeu agora por que as propagandas da TV dizem todos os dias: “É só amanhã, não perca essa promoção incrível”

Ou seja Nilda, você, eu e toda a torcida do Flamengo somos movidos biologicamente para gastar e de preferência usando o crédito para antecipar uma recompensa e não perder uma grande oportunidade.  

Por mais estranho que possa parecer, eu costumo dizer que existem pessoas que são viciadas em dívidas. Contraem dívidas por puro prazer. Definitivamente esse era o caso da Nilda. Óbvio que ela e todos os viciados em dívidas, assim como os viciados em outras drogas, nunca admitem tal vicio.

É como se dissessem: “Eu compro socialmente apenas, mas se puder fazer em 12 vezes no cartão eu prefiro.”

Agora imagine minha situação amigo, eu precisava diagnosticar o vício a ela mas não podia simplesmente dizer: “Você é viciada em dívidas” por 2 motivos;

  1. Como todas as pessoas que sofrem desse mal, ela jamais admitiria.
  2. Simplesmente dizer isso a ela não ajudaria em nada, era preciso trazer uma solução.

Em nossa conversa comecei a fazer um paralelo ao comportamento do viciado, em outras drogas, para que ela entendesse se aquele tipico comportamento lhe era familiar.

Para as pessoas que sofrem de problemas com álcool, um copo de cerveja é tudo menos um líquido amargo, refrescante e que o deixará de ressaca no outro dia. Diante de um copo de cerveja o viciado se depara com uma série de significados simbólicos que vão desde o carinho e conforto há muito tempo negados, o controle, o protesto, o poder.

O interessante é que para muitos o dinheiro, ou o consumo, é exatamente a mesma coisa.

Um cartão de crédito é qualquer coisa menos um plastico que lhe confere o direito de comprar algo agora e pagar depois.

Se comparado a outras drogas o dinheiro possui um outro agravante: Quanto mais intangível ele se torna, mais tentamos fazer coisas intangíveis com ele.

Quando terminei a fala sobre a intangibilidade financeira pude perceber nitidamente em seu rosto uma interrogação que me dizia: “eu não estou entendendo nada”.

Fiz um gesto para chamar a atenção de Nilda e disse: preste bem atenção nisso:

“Nós compramos uma casa mas na verdade estamos buscando segurança e auto-estima, compramos um carro novo em busca de auto-estima ou felicidade. Nós compramos uma roupa nova mas na verdade estamos comprando o amor e a admiração de nossos companheiros. Compramos um vídeo game, mas no fundo estamos comprando o afeto de nossos filhos”.

Assim como uma alcoólatra está buscando saciar sua necessidade em algo que não o faz, nós estamos com a carteira cheia de cartões de crédito buscando comprar o que não está a venda.

Assim como o alcoólatra está sempre tomando “só mais uma, a saideira” e nunca se sente plenamente realizado, o viciado em dívidas está sempre comprando mais um sapato, bolsa, celular, carro, relógio, perfume e tantas outras coisas que nunca preencherão nada além dos guarda roupas.

Feito essa breve introdução começamos a conversar sobre o que eu chamo de CVF – Ciclo do Vício Financeiro.

     Compulsão ==> vergonha ==> negação ==> compulsão.

Compulsão

O CVF começa com o desejo de comprar algo que, nesse momento, não podemos pagar. Embora saibamos que não podemos, ao menos nesse momento, comprar tal bem; nos sentimos motivados a comprar mesmo que isso nos custe algumas parcelas no cartão de crédito e em alguns casos custe até prestações que vão de 3 a 40 anos.

Minha pergunta para introduzir a ela o fator vergonha do CVF: “Você já mentiu sobre os valores de algo que comprou em uma liquidação ao seu marido?”

Como eu já havia dito a Nilda os motivos por trás de um copo de cerveja e os motivos por trás de uma compra ficou fácil dizer a ela que esse busca nunca seria saciada com um nova compra, mas que a necessidade de uma suprir necessidades emocionais vira uma necessidade que drena nosso senso de lógica, razão e até mesmo bom senso.

Se todo problema financeiro fosse somente gastar mais do que ganha não haveria pessoas endividadas no mundo, bastava, “apertar os cintos”, replanejar a vida e por alguns meses essa questão estaria resolvida.

anatomia da divida

Vergonha:

O Problema é que as coisas não são assim tão simples, quando nós cometemos um erro financeiro tendemos a olhar para o lado para certificar-se de que ninguém viu e escondemos todos os rastros.

Sim, por vezes, ao receber a fatura do cartão de crédito sequer abrimos, colocando-a em um lugar longe de nossos olhos com a esperança de que um dia se resolva.

Questionamentos como: “O que eu fiz, por que eu comprei esse sapato se nem precisava””, “por que troquei de celular se o meu estava em perfeito estado?” são muito frequentes.

O sentimento de culpa vem acompanhando de um sentimento de vergonha, sendo necessário esconder os vestígios de um crime bem feito, porém mal arquitetado. Levando o sujeito ao próximo passo, a negação.

Negação

Lawrence Ausubel um economista da Univesrty of Maryland, constatou em uma pesquisa que usuários de cartão de crédito admitem somente $4 em cada $10 que realmente devem.

Por que fazemos isso? pelo mesmo motivo que sujeito embriagado, quando flagrado em estado alterado diz: “não estou bêbado não, eu tomei só 2 copos de cerveja”, ou seja, vergonha.

Desse forma entramos em um estado de negação e nos engajamos na fantasia de que o débito não está la, para nosso cérebro emocional isso é de fato como se a dívida não existisse. Dai para partimos para uma próxima compra só precisamos estar diante de uma loja ou até mesmo de um computador para que a negação torne-se uma nova compulsão iniciando novamente o ciclo do CVF.

Estávamos quase chegando ao final de nossa conversa e eu precisava entregar a Nilda uma solução para seu CVF.

O que qualquer especialista em finanças pessoais diria que para sair das dívidas é preciso anotar o quanto você ganhar versus o que você gasta, planeje sua compras e seus sonhos e seja feliz.

A verdade é que isso não funciona por um simples motivo: Quando fazemos isso, nessa ordem, estamos querendo a razão sobrepondo a emoção. Se você tentar 100 vezes sobrepor sua emoção com a razão, em 100 vezes você falhará.

Portanto Nilda, antes de fazer planilhas de gasto, vamos começar pelo último passo do ciclo.

Eis suas tarefas para que sua vida financeira se resolva de uma vez por todas.

1 – Substitua a negação por aceitação.

O último passo do ciclo é negação e o antidoto para esse problema é aceitação.

O primeiro passo é aceitar as decisões que você tomou no passado, mesmo que esse passado tenha sido há alguns minutos atrás. Pergunte-se o que de fato você tentava comprar ao aproveitar a última liquidação.

O Rafael Seabra, em seu blog “quero ficar rico” tem um artigo que fala sobre os mitos do dinheiro. A leitura desse artigo pode ajuda-lo a entender motivos por trás dos hábitos de consumo. Leia aqui.

2 – Substitua a vergonha por verdade;

Seja verdadeiro consigo sobre os seus sentimentos por trás das compras, seja verdadeiro com os membros de sua família a respeito do sentimento, bem como dos valores que estão em questão em seus empréstimos, financiamentos, cheque especial e cartão de crédito.

Não caia na tentação de diminuir 1 centavo sequer do total de suas dívidas.

3 – Substitua compulsão por controle;

Por último você fará o controle. Somente agora anotar suas despesas e fazer um orçamento será útil. Se você pular as etapas anteriores desse ciclo estará fadado a constatar que agora você gasta mais do que seu orçamento quando a oportunidade aparece e que sua planilha te mostra isso, definitivamente isso não resolve nada. É preciso mudar a emoção por trás da razão e não o contrário. Para que você faça um bom controle eu sempre recomento um aplicativo muito eficiente o Guia Bolso que faz isso automaticamente.

Entendido esses 3 passos e que simplesmente gastar menos do ganha é ineficiente se não analisado as questões emocionais por trás disso a Nilda sai daquele dia com algumas tarefas que pude acompanhar em 1 ano quanta coisa ela construiu, saindo de uma devedora compulsiva para alguém que estuda o mercado financeiro com afinco.

Se foi útil para você entender da CVF, será útil para mais alguém, compartilhe esse artigo para que mais pessoas possam entender como se livrar das dívidas de uma vez por todas.

Muita prosperidade para você!

Sobre Tiago Feitosa

Tiago Feitosa

Eu sou o Tiago Feitosa e quero compartilhar com você tudo que nós precisamos para colocar em prática a prosperidade que merecemos.